Banda do Samouco: O pasodoble que pára Padilla no Campo Pequeno

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Com quase um século de existência, a Banda da Sociedade Filarmónica Progresso e Labor Samouquense é conhecida, nacional e internacionalmente, pelos seus solos de trompete. Convidada habitual para a cobertura da época de corridas do Campo Pequeno, destaca-se pelo seu desempenho nos pasodobles. Padilla, nome maior do toureio, até pára a lide para ouvir a música

Marta Carreiro

A Sociedade Filarmónica Progresso e Labor Samouquense nasceu a 1 de Dezembro de 1919, apresentando-se como a colectividade mais antiga da vila do Samouco. Com ela, nasce a Banda do Samouco, como é vulgarmente conhecida, e a Escola de Música, que tem como objectivo a formação de jovens aspirantes a músicos. Hoje em dia, para além da banda, existe um grupo coral. A colectividade promove, ainda, várias iniciativas de índole recreativa e desportiva na sede, nomeadamente os bailes populares, a ginástica, a zumba e o hip hop.

Dário Moura, actual presidente da colectividade, afirma que não são conhecidos os fundadores da mesma, uma vez que os registos mais antigos se referem ao ano de 1922. “Sabe-se apenas que partiu da iniciativa de um grupo de músicos da vila que se juntou”, diz o dirigente.

Conhecida nacionalmente, a banda faz actuações um pouco por todo o país. Desde Guimarães ao Alentejo, os pasodobles apresentados são o que a tornam na banda de eleição para fazer a cobertura das corridas de touros do Campo Pequeno.

Ontem mesmo, foi mais um desses dias. A Banda do Samouco voltou a abrir a época na principal praça portuguesa, assinando mais uma página na sua história com uma noite memorável. Interpretou, pela primeira vez, o pasodoble especialmente composto para Juan José Padilla, o toureiro de renome mundial, que dá nome à nova música por ser fã da banda.

O presidente recorda o momento mágico que estabeleceu, para sempre, esta ligação a Padilla.

“Um dos momentos mais marcantes foi, sem dúvida, uma corrida que houve há relativamente pouco tempo no Campo Pequeno, em que um dos grandes nomes do toureiro mundial, Padilla, em plena praça, parou de tourear o touro para escutar e agradecer à banda”, conta Dário. Como resultado deste acontecimento, o músico António Labreca, também compositor, tomou a iniciativa de compor um pasodoble para o toureiro com o seu nome e que foi estreado esta noite passada, 6 de Abril, na corrida do Campo Pequeno com Padilla.

A Banda do Samouco acompanha frequentemente as festividades da vila de Alcochete e da cidade do Montijo.

A nível internacional, destaca-se o facto de desde 1978 a Banda do Samouco ser convidada a participar nas Festas da Nossa Senhora das Angústias, que ocorrem na segunda semana do mês de setembro na cidade espanhola fronteiriça de Ayamonte. A sua presença nas festividades tornou-se contínua a partir 1996, sendo que há seis anos que a Banda do Samouco é a única banda portuguesa a marcar presença nas celebrações. “São o clímax de toda a época. Os espanhóis vêm de ferry-boat até Vila Real de Santo António para receberem a banda e levá-la até à cidade, onde se encontram milhares de pessoas à espera no cais e que nos recebem com grande alegria”, revela Miguel Monteiro, músico da banda e estudante universitário. Do cais, partem para a câmara municipal, onde são hasteadas as bandeiras espanhola e portuguesa e cantados os hinos de cada país. “É uma sensação de grande satisfação”, comenta Dário, ao que Miguel completa que são tratados como família, não havendo qualquer tipo de distinção entre portugueses e espanhóis.

Segundo Miguel, é difícil conciliar os ensaios e concertos da banda com os estudos, no entanto, não pondera desistir da actividade que considera o seu “hobby de maior gratificação”. Apesar de grande parte serem músicos amadores, o estudante afirma que tentam sempre dar o seu melhor para levar o nome da banda e da vila do Samouco o mais longe possível. Já Adriana Monteiro, música da banda e actual militar, teve de se afastar temporariamente dos ensaios e concertos. “A música é uma paixão que existe na minha família há muitos anos”, confessa Adriana, motivo pelo qual decidiu entrar para a banda. “Infelizmente agora não posso estar presente como antes, por querer chegar a oficial e focar-me nos estudos da faculdade, mas quando puder, voltarei aos concertos”. Para a militar, a banda é o concretizar de um sonho que já vem da sua mãe, “eles não me deixaram sair, disseram que ia ter sempre o meu lugar à minha espera”, afirma a música.

Jaime Monteiro, irmão mais novo de Adriana, está na Escola de Música para um dia poder entrar para a banda. “Nas férias de verão a minha família decidiu formar uma banda e andámos a tocar pelas ruas da Mina de São Domingos. Eu tinha um trompete de plástico e diverti-me imenso a tocar. Foi aí que percebi que queria tocar trompete e pedi aos meus pais para entrar para a música”, conta o aprendiz, um dos 25 jovens da Escola de Música.

A colectividade sempre primou pela sua auto-suficiência. Recebendo um apoio de 135€ mensais por parte da Junta de Freguesia do Samouco, procura organizar actividades e eventos que permitam angariar dinheiro para o seu funcionamento.

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Hoje em dia a banda conta com cerca de 48 músicos e já lançou dois CDS. O plano de actividades traçado no início de cada época não diverge do habitual, no entanto, Dário assegura que todos os anos tentam sempre fazer melhor do que no ano anterior. A temporada termina com o concerto de aniversário da banda, realizado no primeiro Dezembro e que tem início às oito da manhã com a tradicional arruada para celebrar o aniversário da colectividade e a restauração da independência portuguesa. Durante a manhã, vão passando pelas casas dos novos músicos, onde lhes espera um lanche e, em conjunto, tocam músicas. O resto do dia é marcado por outros momentos importantes como a ida ao cemitério onde depositam um arranjo floral em honra de todos os que já passaram pela banda. É neste dia que os aprendizes passam a integrar a Banda do Samouco.

Inspiradas nos ideais liberais e da fraternidade, as bandas filarmónicas surgiram para democratizar a instrução e elevar o nível cultural da sociedade. Constituem-se como um dos tipos de bandas mais diversificadas no que diz respeito ao estilo de música, tocando desde procissões religiosas a pasodobles.

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