Menino da Bela Vista brilha no filme “São Jorge”

FILME. Nuno Lopes, David Semedo e Marco Martins apresentaram filme com Charlot esgotado
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Filme sobre Portugal nos tempos da troika mergulhou nos bairros da Bela Vista, em Setúbal, e Jamaica, no Seixal, e fez dos moradores verdadeiros actores

 

David Semedo, morador do bairro da Bela Vista, em Setúbal, tem apenas 11 anos e está a conquistar o coração dos espectadores que por todo o país têm assistido ao filme “São Jorge”, um drama escrito e realizado por Marco Martins e com o actor Nuno Lopes no papel de um boxeur atirado para o universo da criminalidade.

Em “São Jorge”, David Semedo interpreta o papel de Nelson, filho de Jorge (Nuno Lopes), e que está na iminência de viajar com a mãe (Mariana Nunes) de regresso ao Brasil, por causa de uma vida difícil no bairro.

O menino é um dos vários não-actores naturais do bairro da Bela Vista que desempenharam papéis na longa-metragem, reflectindo sem filtros o impacto que a intervenção da troika teve nas populações desfavorecidas dos bairros sociais.

“O David foi encontrado através de um casting grande feito em todas as escolas da Margem Sul. Procurávamos um miúdo com certas características. Desde o início soubemos que o David era especial, foi o casting mais emocional. O David foi o melhor actor com quem eu já trabalhei”, elogiou Marco Martins na apresentação do filme que decorreu no Cinema Charlot, no domingo, 2, à tarde.

Também Nuno Lopes, que protagoniza o filme como um boxeur forçado a entrar no esquema das cobranças difíceis para conseguir dinheiro para sustentar a família, se confessou sensibilizado com a prestação da criança, que na altura das gravações tinha 9 anos. “No final do filme, se há alguma coisa que me transformou foi ter conhecido o David e a família dele”, disse.

David Semedo é filho de pai cabo-verdiano e mãe cigana e, na opinião do realizador, tornou-se a personagem “mais fascinante do filme”, revelando um talento natural para a representação. À saída da sessão esgotada no Cinema Charlot foram várias as pessoas a dar os parabéns à criança e à mãe.

 

Bairros de Setúbal e Seixal inspiram narrativa

“São Jorge” começou a ser desenvolvido por Marco Martins em 2012 e inicialmente seria uma história sobre um boxeur, até que a realidade da crise se impôs durante a pesquisa de campo do realizador em bairros sociais da Linha de Sintra e, depois, da Margem Sul.

O filme acabou por ser rodado no bairro da Jamaica, no Seixal, “que toda a gente associava ao perigo e ao tráfico de droga”, e no bairro da Bela Vista, em Setúbal. A escolha foi “emocional”, explicou o realizador. “O bairro da Bela Vista é muito diferente porque tem tensões, porque lá vivem pessoas de etnias distintas e é um bairro muito maior. Achei interessante ter bairros contrastantes”.

A produção fez um casting informal com os habitantes e foram criados “grupos de reflexão na escola da Bela Vista”, os quais acabaram por inspirar muitos dos diálogos do filme que se vêm à mesa na casa de Jorge. “Havia assuntos muito recorrentes, sobre a Segurança Social, o desemprego, os problemas do bairro”, recordou Marco Martins na sessão de perguntas com o público.

Para Nuno Lopes, que cresceu na Amadora em bairros sociais, o processo de adaptação ao ambiente real das filmagens não foi problema, ainda que se tenha sentido “triste com muitas situações” de vida e orgulhoso noutras. “O que mais me toca no final do filme é saber que as pessoas que foram retratadas nele ficaram contentes”, partilhou.

“São Jorge” valeu a Nuno Lopes o prémio de Melhor Actor no Festival de Veneza 2016, onde a produção estreou. Desde então, o filme foi apresentado em inúmeros festivais de cinema por todo o mundo, até estrear nas salas portuguesas a 9 de Março, onde já teve mais de 30 mil espectadores. A apresentação em Setúbal foi “um prazer especial” para Marco Martins e Nuno Lopes, por terem regressado “à origem do filme”.

No elenco participam também Beatriz Batarda, Mariana Nunes, Gonçalo Waddington e Carla Maciel, entre outros actores. O filme está em exibição no Cinema Charlot – Auditório Municipal, em Setúbal, até quarta-feira, 5, às 21h30.

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