Inspector acusado de desviar 200 mil cala-se em tribunal

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O agente da PJ, Emanuel Briosa, que está preso em Évora, comprou café em Corroios. Diz que “certamente” prestará declarações mas por enquanto preferiu ficar calado. Julgamento prossegue no dia 24 deste mês

O inspector da Polícia Judiciária (PJ) acusado de desviar 200.000 euros durante buscas a uma residência em Cascais, no âmbito do processo “Rota do Atlântico”, em que José Veiga é um dos arguidos, remeteu-se hoje ao silêncio em tribunal. Na primeira sessão do julgamento, que decorre no Tribunal de Cascais, questionado pela presidente do colectivo de juízes, Ema Vasconcelos, o arguido optou por não prestar depoimentos: “Certamente prestarei declarações [no momento oportuno]”, referiu.

Contudo, fonte ligada ao processo adiantou à agência Lusa que no primeiro interrogatório judicial, após a detenção, Emanuel Briosa confessou o crime, mas assegurou que apenas retirou parte da quantia que consta da acusação do Ministério Público (MP) e não os 200.000 euros.

Segundo a acusação do MP, a que a agência Lusa teve acesso, três inspectores, entre eles o arguido, realizaram em Fevereiro de 2016 uma busca a uma vivenda na Quinta da Marinha, Cascais, habitualmente utilizada pelo ministro das Finanças da República do Congo, Gilbert Ondongo, propriedade da sociedade West Side World.

Na cave da habitação estavam dois cofres com “dezenas de maços de notas”: um com três milhões de euros e outro com três milhões de dólares, dinheiro que as autoridades consideram estar relacionado com os ilícitos criminais averiguados no processo “Rota do Atlântico”, que investiga crimes de corrupção no comércio internacional, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

No momento em que os outros dois inspectores ficaram a acondicionar num saco as notas de dólares, o arguido Emanuel Briosa pegou num saco onde já tinham sido colocados os maços de notas de euros e levou-o para o andar de cima, para uma sala situada no rés-do-chão, indica a acusação.

Segundo o MP, o inspector retirou então pelo menos um maço com 1.000 notas de 200 euros.

Os dois inspectores da PJ que acompanharam o arguido na busca domiciliária confirmaram hoje os factos descritos na acusação, sublinhando que, enquanto ambos ficaram a contar os dólares na cave, Emanuel Briosa “transportou sozinho” os sacos/malas com os euros para a sala.

As duas testemunhas acrescentaram que, no período em que ficaram a retirar os dólares do cofre, a colocar os maços das notas nos sacos, e até que também eles chegassem à referida sala, Emanuel Briosa ficou sozinho durante esses minutos.

Assim que chegaram à mesma sala onde estava o arguido, os dois inspectores viram o arguido a encaminhar-se do exterior da moradia para o interior da sala, tendo o chefe da brigada questionado o colega: “Então deixaste o dinheiro ali sozinho?”.

Um inspector e uma inspectora disseram ainda que na habitação estavam “dois/três homens das obras” e que um deles acompanhou a busca até ao momento da abertura dos cofres, situados na cave, que, segundo as testemunhas, tinha a decoração de uma discoteca.

De acordo com a acusação, o arguido “gastou parte da quantia de que se apoderou em diversas despesas em bens e serviços de diversa natureza”, entre os quais a compra do trespasse de um café, em Santa Marta do Pinhal, Corroios, Seixal, pela qual pagou 20 mil euros.

O inspector da Unidade Nacional de Combate à Corrupção está acusado de peculato e encontra-se em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Évora desde 26 de Julho de 2016.

O Ministério Público pede a pena acessória de proibição de exercício de funções pois, segundo a acusação, Emanuel Briosa revelou com esta conduta “indignidade para o exercício” do cargo.

A próxima sessão ficou agendada para 24 de Abril.

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