Soleen Ibrahim: a refugiada iraquiana que vive em Setúbal

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Soleen Ibrahim tem apenas 13 anos. Vive com os pais e os três irmãos mais novos, em Setúbal há quase um ano. Frequenta o 8º ano, na Escola Luísa Todi

 

 

Soleen Ibrahim tem apenas 13 anos. Mas carrega na memória o testemunho de uma vida incerta, de alguém que se viu forçado a abandonar o país. É a filha mais nova de Mohammed e Nihad Hasan e mora em Setúbal com os três irmãos mais novos, desde Julho do ano passado. Frequenta o 8º ano na Escola Secundária Luísa Todi, em Setúbal e no futuro pretende ser médica “para ajudar os que mais precisam”.

No entanto, até chegar a Portugal, passou por um autêntico ‘mar’ de adversidades, numa travessia feita de luta pela sobrevivência e segurança. Quando a guerra se agravou em Mossul, no Iraque, sua terra-natal, viu-se forçada a fugir com a família para um campo de refugiados, na Grécia. “A minha casa foi bombardeada, ainda me lembro do som dos tiros junto à minha escola. Não estávamos seguros, tivemos de fugir”, recordou. Para a jovem iraquiana, a condição de refugiado não se escolhe, é fruto de circunstâncias alheias, como as guerras e a instabilidade política. “Nós somos pessoas normais, que tiveram de fugir da guerra para encontrar a paz noutro país”, explicou.

Juntamente com os avós, pais e irmãos foi para a Turquia e fez sete tentativas para atravessar o Mediterrâneo até ao Ocidente. Numa das viagens, o barco que a transportava virou-se. “Morreram mais de 1000 pessoas nessa travessia. De noite, o mar ficou igual a uma estrada e nós ficámos na água à espera de ajuda. Só me faltou um bocado para morrer, mas não desisti”, confidenciou visivelmente emocionada.

Soleen recordou as várias tentativas para chegar à Grécia por terra e as emboscadas empreendidas pela polícia turca. “Uma vez saímos às quatro da manhã e fomos a pé, sem comer e sem beber durante dois dias até a uma paragem de autocarro. Pensávamos que o destino era a Grécia, mas quando terminou a viagem, veio um autocarro preto da polícia turca e levaram-nos de novo para Istambul. Isto aconteceu quatro vezes e da última, os polícias bateram na minha mãe e na minha avó”, contou a menina.

Só à sétima tentativa é que conseguiu rumar da Grécia a Itália e depois apanhar o avião para Portugal. Só teve tempo de levar algumas roupas e o telemóvel, mas na memória levou consigo os amigos de infância, a professora, a sua casa e as lembranças de uma vida interrompida pela guerra.

Ao chegar ao nosso país, a língua foi a principal barreira a vencer, a que se juntou a difícil integração numa escola portuguesa. Em Portugal contou com o apoio de Zenóbia Frescata, voluntária no Conselho Português para os Refugiados (CPR) e na Fundação Islâmica de Palmela. “Desde que começou a crise dos refugiados, em 2015, contactei enquanto turista com várias pessoas da Síria e outros países em guerra e ofereci-me como voluntária para ajudar no acolhimento dos refugiados, que chegassem a Portugal”, explicou.

Depois da sua experiência na associação, Zenóbia tem uma visão muito própria do voluntariado. “Não podemos ver a questão do voluntariado como ‘vamos ajudar os coitadinhos’. Eles não vieram para cá porque são pobres, antes pelo contrário. Muitas vezes, as pessoas dizem que eles trazem telemóveis. É verdade e se fossemos nós, também levaríamos, pois é a maneira que têm de trazer os contactos da família, fotografias e as memórias do passado”, esclareceu.

Nove meses depois, Soleen Ibrahim diz sentir-se feliz e integrada, em Portugal. Já fala português e ensina curdo, grego e turco aos colegas da sua escola. Nos tempos livres, canta e toca viola. A sua disciplina preferida é Físico-Química. Quando crescer, gostava de ir para Medicina “para ajudar os outros”, mas também já pensou em ser jornalista ou assistente social. Não exclui a hipótese de regressar ao seu país, mas para já, quer construir o futuro em Portugal. “Apesar de tudo, tive muita sorte, as pessoas com quem me cruzo são simpáticas e só me querem ajudar”.

A jovem iraquiana foi oradora da conferência “À Conversa Com…”, realizada na passada quarta-feira, 29, na Escola Secundária D. João II, em Setúbal. A sessão foi organizada pelas professoras Fátima Campos e Ana Silva, mentoras do Projecto Geração +. O objectivo foi sensibilizar os jovens para o acolhimento dos refugiados, em Portugal.

Fotos: Misé Pê/D.R.

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