Engenharia da intolerância

Opinião
Miguel Dias

Miguel Dias

Licenciado em Geografia
Dirigente do LIVRE
Miguel Dias

Os órgãos colegiais democraticamente sufragados são, por definição, representativos da votação dos eleitores. Portanto é normal, e até desejável, que haja confronto de ideias e posições antagónicas. Se assim não fosse seriam desnecessários diferentes partidos e candidaturas, que reflectem outras tantas doutrinas, ideologias ou formas de estar. Por vezes, a “troca de mimos” entre bancadas roça os limites da urbanidade. Outras vezes suplantam tudo o que é desejável.

No dia 15 de Março de 2017, Montijo viveu um desses infelizes momentos no salão nobre dos Paços do Concelho. O episódio conta-se de forma simples. É apresentada uma proposta pelo Presidente de Câmara; a bancada CDU lê uma declaração na qual alega falta de rigor da mesma. Aí, as coisas começam a azedar. Uma palavra mais ríspida de um lado e do outro; um mútuo levantar de voz, decorrente da discussão. Nada de anormal, para quem vai seguindo as reuniões deste órgão local.

De repente surge no ar uma conjugação de palavras que nem se deve pensar, quanto mais vocalizar. O Presidente de Câmara, Nuno Canta, dirige-se ao Vereador Carlos Almeida e profere a seguinte afirmação, que manchará para sempre as actas do nosso município (onde deverá ficar registada para memória futura): “O senhor não é de cá; vá para a sua terra!”

Imediatamente, um burburinho tomou conta da sala. Uma indignação solidária. O público presente estava de queixo caído perante tal espectáculo tão degradante. Eu, que forasteiro me confesso, tive o impulso de me levantar e sair da sala intempestivamente. Já do lado de fora continuava a ouvir os gritos e as acusações trocadas de falta de respeito pelos eleitores. Nessa altura o edil jurava a pés juntos respeitar os eleitores. Pelo menos os que votaram nele. Tendo em conta os resultados das últimas autárquicas e os números da abstenção, o senhor Presidente de Câmara respeita muitos poucos montijenses. Por outro lado, também a bancada do PSD repudiava a conduta pouco ética do edil, associando-se à crítica.

Muitos leitores perguntarão se neste momento valerá a pena continuar a ecoar semelhante episódio, perpetuando o alarido. Respondo afirmativamente, sem qualquer sombra de dúvida. Há inúmeras razões que sustentam semelhante opção; partilharei algumas de seguida.

Normalmente, as reuniões de câmara são pouco participadas. Desta forma, semelhante conduta foi presenciada talvez por uma dúzia de pessoas. É fundamental que esta informação chegue à maioria dos munícipes montijenses e que estes interpretem a mesma da forma que acharem mais adequada.

A Câmara Municipal do Montijo orgulha-se, e bem, de promover o princípio da igualdade e ter uma política de portas abertas (de inclusão); propala aos quatro ventos que é a cidade do continente que maior percentagem de população fixou, que anteriormente residia noutros concelhos. Como tal, não pode ter como figura maior uma pessoa que tem um discurso claramente intolerante referente aos que são de fora, que roça, aqui ou além, a barreira da xenofobia.

Mais. Por muito que este discurso deva ser imputado a quem o proferiu, o mesmo acaba por ser reflexo do município, pois o seu edil é legitimado por processo eleitoral e deve ser porta-voz de todos/as os/as munícipes. Como tal, a engenharia da intolerância, que professa nas reuniões de câmara e um pouco por todos os locais onde marca presença e impõe o seu discurso, começa a ser uma marca que passa para o povo deste concelho, muito particularmente aos nados por cá.

Um ou dois dias após este episódio, um cidadão natural do Montijo, muito preocupado, perguntava-me se, uma vez que já moro cá há 15 anos, tenho percepção que os montijenses não são assim. Claro que tenho. Na sua larga maioria são pessoas afáveis e que sabem receber. Amigos do seu amigo e abertos à diferença. Solidários e inclusivos.

Por isso me recuso a calar a indignação e pactuar com semelhantes atitudes. Todos devemos bradar que o discurso populista não criará raízes por cá. Que a engenharia da intolerância não vai erguer muros por esta terra. Que não criamos barreiras artificiais entre os locais e os de fora. Obviamente, senhor Presidente da Câmara, que os naturais e os residentes no Montijo, ou seja todas as pessoas que fazem este concelho, não se revêem nas suas palavras. Tire as devidas ilações.

3 comments

  1. Mas afinal qual é a terra de uma pessoa? Onde nasceu, onde trabalha (isto, partindo-se do pressuposto que trabalha numa só terra), onde trabalhou mais tempo, onde vive, onde tem raízes?
    Não sabendo o entendimento dos PC (leia-se Presidente da Câmara e PCP) sobre o conceito de terra será pouco prudente estar a comentar de forma tão … terra-a-terra!

  2. O “Diário da Região” transcreveu uma citação da frase : “…o senhor é que não é de cá…” .Deve reparar-se nas palavras ” é que ” ., melhor : deve-se CONTEXTUALIZAR a frase e não truncar/cortar/omitir precedentes e procedentes imediatos. A ATA, e ou a gravação , devem ser lidas por quem queira não confundir “pós-verdade” com factos ..

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