Quilómetros de votos

Opinião
Miguel Dias

Miguel Dias

Licenciado em Geografia
Dirigente do LIVRE
Miguel Dias

Tempos atrás escrevi um devaneio intitulado “O Sonho de uma Noite de Alcatrão”, que pode ser lido aqui: http://marealta.eu/o-sonho-de-uma-noite-de-alcatrao-67952. A ideia para esse texto surgiu-me numa mesa de café, quando em amena cavaqueira com colegas de trabalho, provenientes de lugares díspares, chegou-se à conclusão de que este ano, os tapetes de asfalto novo têm sido um ponto comum entre vários municípios. Facilmente se chegou à conclusão que não será irrelevante o facto de estarmos em ano de eleições autárquicas…

No caso concreto do Montijo, muita atenção tem sido dada a esta vertente, com múltiplas visitas do edil ao andamento das obras, atestadas pelos milhares de instantâneos que teimam em registar esses momentos e difundidos de forma maciça no site e pelas redes socias. Nos últimos meses, não há pá que entre no chão deste concelho que dispense a fotografia da praxe, com o Presidente de Câmara a fazer papel de capataz.

Todos os dias úteis, como um pêndulo, usufruo do percurso turístico na cidade do Montijo, proporcionado pela carreira urbana 402 dos Transportes Sul do Tejo. Quem conhece sabe do que falo. Não será exagero referir que esta passa por metade das ruas da cidade, no trajecto entre o Bairro da Bela Vista e o Cais do Seixalinho. Curiosamente não passa por uma única rua que tenha sido alcatroada recentemente… Prova clara que, invariavelmente, a propaganda não tem correspondência com a realidade.

O estado degradante da Estrada do Seixalinho (municipal 501, salvo erro), única via de ligação ao Cais do Seixalinho, é exemplificativo do tipo de escolhas que se vão fazendo. Não devemos esquecer que a deslocalização do cais de embarque da ligação Montijo / Lisboa, embora seja uma obra da Transtejo, sempre foi bandeira orgulhosamente ostentada pelos diversos executivos socialistas e vinha acompanhada da promessa de uma nova estrada, com passeios e ciclovias. Dando de barato o facto de só no final de 2016 se terem começado a reparar as estradas do concelho, mais uma vez a via que possivelmente mais necessitará de obras fica esquecida. Até quando? Será que se espera a aterragem do primeiro low cost para levar a efeito a requalificação de uma estrada vital na mobilidade dos montijenses?

Uma rede rodoviária cuidada é vital para a qualidade de vida dos munícipes. Mas é também evidente que a sua correcta manutenção, com intervenções atempadas, evitariam que estas vias de comunicação chegassem ao actual estado de degradação, visível em vários pontos. Esse esforço diário compete aos serviços camarários; que devem ter orientações nesse sentido por parte de quem exerce o poder. A manutenção da rede rodoviária não pode ser uma espécie de evento olímpico que aparece de 4 em 4 anos.

O problema é que a simples e normal manutenção das estradas e caminhos por parte dos serviços camarários não tem o mesmo impacto e visibilidade pretendida do ponto de vista da estratégia política. Os autarcas, geralmente, apostam na recta final do mandato para lançar todas e quaisquer obras, muitas das quais deveriam ter sido iniciadas em anos anteriores. Com isto esperam recolher os quilómetros de votos que os reelejam. Cabe à população separar o trigo do joio, percebendo que o seu voto deve avaliar todo o quadriénio anterior, e não apenas o ano final, bem como ponderar as diversas alternativas que se apresentem a eleições.

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