Jovem do Pinhal Novo detido por rede de espiões no Irão [VÍDEO]

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Pedro Pinela conta como ficou aterrorizado por ter sido suspeito de ligação ao Daesh, depois de surpreendido por agentes da “Beitol Moqadas”. O relato na primeira pessoa do jovem que continua a aventura pelo mundo

Estava prestes a escrever acerca das especificidades da arquitectura iraniana (incansavelmente trabalhada com minúsculos pedaços de espelho aplicados em tectos e paredes), das famosas tapeçarias daqui (são o segundo produto mais exportado), do cheiro a miolos de ovelha cozinhados nos bazares (vendidos depois a preços idênticos ao do caviar), da obsessão pelos frutos secos que eles têm (que produz o som de cascas a estalarem ao serem abertas ou a cair no chão, enquanto se passa na rua) e por aí fora.

Até chegar à popularidade das cirurgias plásticas no meio feminino, principalmente sob a vertente das rinoplastias (narizes engessados é o que não falta), ao dinheiro que não vale nada convertido ao euro (a maior nota com que se pode andar no bolso equivale a 12,5 euros), aos vendedores de meias, bolos, cintos, livros para colorir, lanternas, envelopes, etc (até que o leitor achasse que efabulava acerca desta ampla diversidade de produtos disponíveis dentro do metro da capital).

Contudo, depois do que tive a sorte de presenciar no meu primeiro dia em Ispão (Isfahan), não tenho como não falar da contemporaneidade da minha experiência que sempre reflecte uma parte do passado.

Estamos a dia 10 de Fevereiro de 2017, passaram 38 anos sobre a revolução iraniana. A manhã começa pacata e soalheira, há pouca gente na rua. Não encontro onde dormir, pelo que tenho de carregar a mala o dia inteiro, existem muitos olhares postos nas minhas costas, assim sendo.

Vagueei pelas ruas, no centro da cidade, até dar de caras com uma banda filarmónica militar a aquecer o seu fôlego para as celebrações daquele que é o dia que marcou o derrube o xá Mohammad Reza Pahlevi e a consequente subida ao mais alto posto da governação de aiatolá Khomeini.

Esta nova era na política do Irão ditou principalmente o distanciamento do país em relação ao Ocidente, que se adoptassem doravante leis conservadoras baseadas no Islamismo e que o clero tivesse o papel principal no comando da nação. Este dia pode apenas ser comparado, ao nível da sua importância social, ao nosso 25 de Abril.

Em meia hora, as avenidas cortadas ao trânsito são inundadas de gente vinda de todas as afluentes. Os camuflados multiplicam-se, erguem-se grandes faixas, distribuem-se cartazes, os altifalantes gritam palavras de ordem com um forte cariz religioso e eu largo a tralha para um canto discreto e fotografo o mais que posso. Há uma praça enorme para onde todos convergem, porém o acesso à plataforma de onde poderia fotografar a multidão é-me vedada.

Uma da manhã, já dormia, junto ao palácio Hasht Behesht, dentro da área de um parque público. Oiço vozes, sinto luzes sobre as pálpebras e acordo. O mesmo homem do restaurante acompanhado por 3 outros homens (2 deles fardados), pedem-me que me levante e que arrume as minhas coisas.

Vão levar-me para um hotel já que não estou disposto a pagar por um, mas quando chegamos ao destino, estou no posto da polícia a ser interrogado sobre a minha religião e sobre a mesquita que visitei por engano, ao anoitecer desse dia. Estavam convencidos de uma eventual ligação minha ao Daesh ou aos serviços de informação de um país inimigo

A polícia passeia pelo meio das festividades com auriculares e à civil, até me encontrarem para me perguntarem qual é o meu problema. Explico que não tenho um, passam a vista pelo meu passaporte, respondo a algumas perguntas e deixam-me ir almoçar.

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No restaurante onde me sento, vejo um homem que entra e que se dirige a mim, pedindo-me o passaporte. Porquê? Ele é da polícia, explicam-me. Posso ver identificação? Deixa-te disso e mostra-lhe o passaporte, foi mais um apelo assustado do que uma ordem. Então, dei-lhe o passaporte, fez-me perguntas com um tradutor a mediar a conversa e, por fim, quis ver as fotografias que tinha na minha câmara. Esta última vontade senti-a carregada de opressão. Despediu-se e deixou-me entre os pedidos de desculpas dos ainda presentes por aquela inconveniência embaraçosa.

Era da polícia religiosa, um “agente” da Beitol Moqadas, responsável por manter a ordem social segundo a lei da Sharia (lei islâmica).

Uma da manhã, já dormia, junto ao palácio Hasht Behesht, dentro da área de um parque público. Oiço vozes, sinto luzes sobre as pálpebras e acordo. O mesmo homem do restaurante acompanhado por 3 outros homens (2 deles fardados), pedem-me que me levante e que arrume as minhas coisas.

Vão levar-me para um hotel já que não estou disposto a pagar por um, mas quando chegamos ao destino, estou no posto da polícia a ser interrogado sobre a minha religião e sobre a mesquita que visitei por engano, ao anoitecer desse dia. Estavam convencidos de uma eventual ligação minha ao Daesh ou aos serviços de informação de um país inimigo.

Tinha sido seguido o dia inteiro pela Beitol Moqadas, fiquei a saber depois de tudo estar resolvido, e inclusive algumas das pessoas com quem travei conhecimento nesse dia eram espiões ao serviço da organização, daí saberem onde podia ser encontrado a dormir, nessa noite.

Se falei em opressão por ter sido forçado a mostrar as minhas fotografias, agora estava aterrorizado, mesmo com as gentis palavras da polícia “normal”, que me ofereceu estadia no posto e que se desculpou pelo ocorrido.

No dia seguinte, cortei a barba, meti-me no hotel mais barato da cidade, juntei toda a minha coragem para voltar a sair à rua e dei um passeio aos pensamentos sobre o dia que passara por um parque na periferia. Somos tão livres em Portugal!, insistia em concluir.

Entretanto… a caminho de Qeshm, Hormozgan, Iran

Pedro Pinela

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