Ainda os trabalhos de casa

Opinião
Francisco Cantanhede
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Entro no carro, ligo o rádio, um psicólogo faz um apelo, tipo panfleto revolucionário: «Encarregados de educação portugueses, sigam o exemplo dos encarregados de educação espanhóis que decidiram promover uma greve aos trabalhos de casa durante um mês.»

As justificações para esta inusitada forma de luta, são por demais conhecidas, destacando-se que os trabalhos de casa são inúteis, que as crianças não têm tempo para brincar, que nos países com melhores resultados em educação os alunos não fazem trabalhos de casa, que… Mais recentemente, promoveu-se uma petição contra o peso das mochilas, e, claro, se os alunos não fizessem trabalhos de casa, não precisariam de levar os livros no regresso a casa. Ora, se os alunos tiverem cacifos onde guardar os materiais dispensáveis à realização dos referidos trabalhos, naturalmente, o peso das mochilas reduzirá substancialmente. A Finlândia surge como paradigma a ser seguido. O realizador Michael Moore fez um documentário comparando o modelo educativo finlandês com o modelo dos Estados Unidos da América. A ministra da educação finlandesa afirma que a alta qualidade das aprendizagens no seu país se deve precisamente ao facto de os alunos não fazerem trabalhos de casa. Quando quatro/cinco estudantes são interrogados sobre o assunto, todos confirmam que gastam entre 10 a 25 minutos diários na realização dos trabalhos referidos. (Como explica esta contradição Senhora Ministra?). Se a esta realidade, acrescentarmos que as famílias finlandesas têm o hábito da leitura coletiva, por exemplo, à noite leem os pais e os filhos, que ao fim de semana visitam monumentos históricos, museus, dão passeios na floresta, pode-se concluir que afinal os alunos finlandeses trabalham mais em casa do que os alunos portugueses.
Questionada uma aluna luxemburguesa, minha familiar próxima, esclareceu que «apenas» faz trabalhos de casa ao fim de semana, o que lhe ocupa todas as manhãs de sábado e de domingo. Um outro familiar a trabalhar na Alemanha informou que os alunos alemães realizam os trabalhos de casa na escola, após terminaram as aulas, com exceção dos referentes a línguas estrangeiras, os quais devem ser feitos no ambiente familiar, a fim de «treinarem as línguas» num contexto diferente da sala de aula. Se os alunos portugueses desenvolvessem, pelo menos, hábitos de leitura no ambiente familiar, certamente os trabalhos de casa podiam/deviam ser, substancialmente, reduzidos, já que um bom leitor é, por norma, um bom aluno.

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