Pinhal Novo: Alguns espaços de Água

Opinião
Jose Vinagre

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Rio Frio: O rio deu nome à herdade e assim a conhecemos desde a sua garnde transformação no séc. XIX, embora o Rio Frio apareça mencionado no primeiro mapa de Portugal, em 1561, quando Álvaro Seco anotou nessa carta «Rio Frio» e também «R. de Agualva». Em 1343, na «Carta de Termo de Palmela» é referida a «veia d’Agualva (…) veia da dita agoa» (in: «Forais de Palmela»). Nos «Inquéritos Paroquiais» (1758), referentes ao terramoto de 1755, aprecem referências a Rio Frio e Roim Frio: «as casas de Roim Frio e as suas terras com várias casas». A partir de então o topónimo está sempre presente. Desde que JMSantos secou e drenou os seus pauis (ano de 1859) que as referências são feitas directamente à Herdade de Rio Frio. Da fortuna do seu antecessor, S. Romão, fazia parte «Rio Frio e courelas anexas».

 O rio Frio que se bifurca no Pontão, dividindo-se pela Caparica-Amieira e pela Terra de Caramelos/Herdade de R. Frio, liga ao rio das Enguias (Barroca d’Alva/Alcochete) e este ao Tejo. Em 1859, os trabalhos de drenação e secagem do rio levaram à criação de um importante sistema hidráulico de valas que encostaram o rio às margens do paul, zonagem, possibilitando o aproveitamento dos seus «baixios» (terras pretas) para a orizicultura e pastagem.

Dessa importante rede hidráulica sobressaem três valas, as quais deixavam a possibilidade de navegação dadas as suas dimensões e caudal de água, em virtude de as marés continuarem a subir nelas. Temos: Vala de S. Romão ou do Romão, Vala do Meio e Vala dos Barcos ou do Vinho (também conhecida por Vala Grande), esta última com a função específica de ser navegável à sirga por batelões que faziam o transporte do vinho e outros produtos agrícolas até ao porto da Baliza (Barroca d’Alva/Rilvas) onde se transbordava o carrego para pequenas fragatas e daí seguia para o Tejo/Lisboa.

A Vala do Romão segue pelo paul da Caparica, sobe à Asseiceira e vai até Pegões, e assim se chamou até à Asseiceira e não Vala da Asseiceira, como é corrente dizer-se, segundo o informante Silvério. Os Romanos navegaram até à Caparica e estabeleceram aí um porto, há 2000 anos. Na «Carta» de 1813-16 a subida do rio pela Caparica até ao Porto Olho do Duque (Amieira) era «impraticável», dando-nos a entender que antes, durante séculos ela fez serventia fluvial, foi praticável, sendo provável que esta linha de água tenha servido de meio comunicante com a parte mais profunda e distante do território caramelo,sustentanto um pouco a tese de Cláudio Torres de que havia a partir do Tejo quatro vias fluviais para o interior da Península da Arrábida: Vala Real de Coina; Rio da Moita; Rio das Enguias prolongado pelo troço do Rio Frio onde se desviava em direcção a Pegões; Vala de Malpique até às proximidades de Q.ª do Anjo. O facto de se chamar á linha de água Vala do Romão, leva-nos a sugerir a segunite hipótese: a vala navegável, ser anterior a JMSantos, ter sido trabalhada entre 1850-52, pelo anterior proprietário da Herdade de Rio Frio, Manuel da Costa Junior S. Romão; reforça esta suposição o facto de no inventário da casa Ferreira Braga/S. Romão, em 1852 (Martins, 1992) constar nos seus «Bens móveis», em Alcochete, «2 barcos», cuja utilidade seria feita no Rio das Enguias e Caparica/Rio Frio (Vala do Romão). Lembremos que, segundo Estevam (1957), desde a 2ª metade do séc. XVIII as embarcações não podiam passar do Porto da Barroca; S. Romão verificando isso e que o porto da Amieira era «impraticável», tal como anteriormente Jacome Ratton, procurou fomentar a navegabilidade da vala. Acrescentamos a possibilidade de a Vala de S.Romão/Romão ser designação plurissecular, associada à presença do porto romano; pois, os árabes designam comunicações romanas como «romani», daí o povo chamar «romão».

O Rio Frio constitui um dos mais importantes territórios da bacia do Tejo, onde impera uma rica biodiversidade, dentro dos seus paúis e alagados, na zonagem de margem e matas ripárias, bem como em toda a sua envolvência com o montado de Rio Frio.

Ter um «rio» e não lhe reconhecer funções ecológicas é deixar correr o tempo da morte. A conjugação Rio Frio – montado, merecem uma atenção especial dos concelhos que repartem estes espaços. Merecem ser área protegida concelhia, com diferentes operacionalizações eco-culturais.

 

(AAVV, 2000/01; Dias & Marques, 1999; Eco-Água; Martins, 1992; Fortuna, 1982; Entrelinhas; Vinagre, 1998; Vinagre, 2010).

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