Poder Local – o Ambiente

Opinião
Miguel Dias

Miguel Dias

Licenciado em Geografia
Dirigente do LIVRE
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Grande parte do futuro ambiental vai-se decidir a nível local. Para que exista um amanhã é essencial que alteremos os nossos hábitos. E neste campo é indispensável o contributo do poder local. De seguida tentarei sintetizar meia dúzia de ideias que as autarquias poderão implementar para estar à altura deste desígnio.

Logo à cabeça surge o desafio da mobilidade. Por um lado, é fulcral que se altere o paradigma dos combustíveis fósseis diminuindo a nossa dependência dessa fontes e a emissão de gases nocivos para o meio ambiente. Por outro lado, é preciso dar tempo para que o desenvolvimento tecnológico potencie a transição para formas limpas de mobilidade. Localmente as entidades devem trabalhar afincadamente com os agentes de transporte colectivo para que existam opções de qualidade e a preço competitivo para todas as pessoas, visando com isso desincentivar a utilização do transporte automóvel particular. Como ganho imediato teremos menor tráfego nas localidades e maior qualidade do ar. Paralelamente deve haver uma aposta nas formas de mobilidade suave: andar a pé e utilização de bicicleta. É certo que não será fácil convencer a população a optar por esta via. Para que isso suceda é necessário fazer com que andar nas cidades se torne uma experiência agradável, eliminando-se as barreiras e obstáculos e criando uma “fluidez natural”, através de passeios convidativos e corredores verdes. As ciclovias, por seu turno, devem vir aos centros urbanos e desenhar-se por todas as artérias, não se limitando a circulares externas, como acontece em muitas localidades. Só assim pode a bicicleta ser vista como uma real alternativa de transporte.

Outra medida necessária é o melhoramento da iluminação pública, tornando-a mais eficiente, quer em termos de poupança, quer em capacidade de visibilidade. A tecnologia led pode oferecer hoje em dia soluções viáveis neste campo. A mesma eficiência e poupança se exige nos edifícios públicos.

As autarquias terão também um papel crucial no incentivo ao tratamento e reciclagem dos lixos domésticos. Essa pedagogia deve começar nas escolas, onde mais facilmente essas ideias são absorvidas pelos jovens cérebros. Mas deve também alastrar à generalidade dos munícipes. Oficinas e conferências abertas à população onde se faça a apologia dos 3 R’s é uma via possível. Por exemplo, ensinando novas formas de reutilizar o que pensamos ser lixo e ensinando como podemos reduzir consumos. As autarquias devem também promover a prática da reciclagem, através de uma rede abrangente de ecopontos ou procedendo a recolha selectiva desses resíduos. Uma outra ideia para incentivar a comunidade ao tratamento dos lixos é a realização de acções de sensibilização onde se troque material reciclável por créditos que permitam a aquisição de produtos locais, títulos de transporte público, entradas para museus ou utilização de equipamentos desportivos públicos locais.

As hortas urbanas são também uma forma saudável e económica de contribuir para um melhor meio ambiente. Recupera terrenos normalmente deixados ao abandono e incentiva a produção local e o consumo de produtos de qualidade potencialmente superior. E dão um colorido diferente às cidades, integrando e incluindo a comunidade no planeamento e gestão do espaço público. Esta é uma experiência que deve ser replicada em localidades de norte a sul.

Os municípios deveriam também dar o exemplo, apostando na geração de energia a partir de fontes renováveis. Uma das primeiras formas alternativas que pensamos é a energia solar. Esta pode ser utilizada para o simples aquecimento de águas, através do sistema solar térmico, ou para a produção de electricidade, através dos painéis fotovoltaicos. Os edifícios públicos, na prossecução da eficiência e economia referidas acima, deveriam estar munidos deste tipo de equipamento. Os prédios de habitação social deviam também receber este tipo de solução. As autarquias podiam ainda, isoladamente ou em conjunto, criar parques (solares ou eólicos) para produção de electricidade nas áreas concelhias, formando empresas municipais ou regionais, e criando um modelo energético 100% sustentável.

Igual propósito devia ser incutido aos cidadãos. A aposta, individual ou dos condomínios, neste tipo de geração energética sustentável deve ser um desígnio para este século, podendo inclusivamente passar pelo conceito de micro-geração. Às autarquias caberá negociar parcerias mais favoráveis aos munícipes ou mesmo criar empresa municipais que possam apresentar soluções mais económicas.

Estas são algumas linhas e ideias simples que podem contribuir positivamente para um futuro mais sustentável. E a maioria delas podem ser implementadas praticamente sem custos ou com recurso a fundos comunitários. Resta haver visão e vontade.

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